sexta-feira, 2 de abril de 2010

O caldeirão multicultural da moda

Muito se fala atualmente sobre a importância da memória para a construção da identidade brasileira. Na verdade, quando ligamos tais conceitos à moda, em geral chegamos à conclusão que não existe uma moda brasileira, por não existir exatamente memória e identidade cultural no Brasil. Pelo menos este é o estigma que carregamos por anos e anos. Lembro-me de uma propaganda da Fernanda Montenegro que falava “Lembra “daquela” praça, “daquela” rua, “daquela casa”...?”, sem lembrar-se dos nomes, como que fazendo uma alusão à falta de memória do nosso povo. E quanto à identidade? Costumamos dizer que o brasileiro não a tem, quando na realidade, diversos estudiosos, sociólogos, antropólogos brasileiros, como Sergio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, entre outros, se preocuparam em estudar nossa sociedade e insistem na nossa forte identidade cultural. Quando a mistura de raças poderia ser considerada falta de identidade, pois ao ter muitas influências, não se tem nenhuma, provamos o contrário: uma língua comum e própria, traços físicos peculiares e ao mesmo tempo tão distintos ( Freyre dizia que todo brasileiro mesmo o alvo de cabelo louro traz no corpo ou mesmo na alma a sombra do indígena ou do negro), formas de comportamento que foram se agregando de várias culturas e se fundindo em uma só. O que seria isso se não uma identidade pautada numa memória? Uma memória de convivência entre índios, negros, portugueses, espanhóis, holandeses, japoneses e tantas outras raças que se misturam como não fazem em nenhum outro lugar do mundo.

O que dizer então da moda, dentro deste contexto sócio-cultural brasileiro? Alguns insistem em declarar que o Brasil não tem uma moda própria. Em parte, podemos dizer que não temos tradição em fazer moda, tanto é que durante anos e anos a fio, nossos estilistas só se preocupavam em copiar os trajes europeus (inclusive os famosos Clodovil, Denner...), e a moda resumia-se ao vestir, sem no entanto, dar-se conta que a cultura já estava manifestada dentro de nós, e que na verdade não era só o vestir, mas o “ser”. Nossa forma de utilizar as cores (fruto de nosso verão constante?), nosso comportamento alegre e espontâneo, nossa música (bossa nova, tropicalismo, axé), tudo está ligado à nossa moda. Até mesmo nossa depilação virou “febre” no exterior! Não podemos negar nossa memória, nossas tradições, inclusive, e porque não, nossas influências folclóricas, que são parte de nós... A preocupação demasiada de não mostrar uma moda folclórica ou estereotipada, pra mim é uma questão de “medo” de aceitar que somos sim, muito guiados pelos elementos das diversas religiões, raças, tribos... Não devemos ter medo de mostrar que a nossa identidade na verdade é essa: é usar elementos populares na confecção de nossas roupas, é ter orgulho de assumir a chita como um tecido que é muito brasileiro e não dar a ela um valor menor por isso, é resgatar as tradições das rendeiras e crocheteiras, que têm uma memória de ofício, e saber que todas essas características são a nossa identidade, uma identidade tão peculiar quanto o nosso povo. E muitos brasileiros já se deram conta disso, e por isso o Brasil está cada dia mais na “moda”.



Por Gabriela

Um comentário:

Catarina Andriola Querino disse...

O interessante é que com o fenômeno da globalização, as identidades mais contraditórias se cruzam o tempo todo, eliminando a noção de uma identidade fixa. O fato é que, atualmente, uma nação é formada por diferentes grupos étnicos, já o Brasil, em especial, nem precisou esperar a globalização para isso, seu início já foi dessa forma; a mistura de raças, o folclore, o verão intenso, o axé, nos mostra uma tradição rica mesmo, recheada. Devemos nos mostrar... Nossa moda é ótima! Nós somos ótimos!